Como fazer carimbos em casa: o que aprendi num workshop de gravação à mão
Por João Pereira, Sim Carimbo
Há uns dias fiz uma coisa que me parecia simples: pôr um grupo de pessoas a gravar carimbos à mão, ao ar livre, numa manhã de sol. Simples demais, talvez. Confesso que fui com algum receio de que ninguém achasse graça a uma atividade tão simples. Enganei-me. Adoraram, e não foi só pelo carimbo: foi pelo convívio, pelo jardim e por passarem a manhã a fazer uma coisa com as mãos. Correu bem mesmo com o sol em cheio na minha cara, mas já lá vamos.

O dia
Foi no Planteia, debaixo da pala da Casa da Cultura, numa daquelas manhãs de sol que parece que estamos no pico do verão. O problema era o sol: batia-me de frente e os participantes, simpáticos, preocuparam-se com a minha visão. Garanti que estava tudo sob controlo, porque já faço carimbos quase de olhos fechados. (Atenção: gravar de olhos fechados não vem nas instruções. Não imites.)
Eu tinha ido preparado para dúvidas técnicas sobre as goivas. Afinal, a maior parte das inseguranças não tinha nada a ver com a gravação, que fluiu com toda a naturalidade. As dúvidas eram sobre o desenho: "o que desenho? será que vai sair bem?". Pergunta clássica, e a resposta é sempre a mesma: um carimbo não precisa de ser uma obra-prima, precisa de ser teu.
À medida que as goivas iam trabalhando, a sala (que era um jardim) foi ficando mais calma. Ouvi "que relaxante", ouvi "que terapêutico", e ouvi a melhor de todas: que isto era ótimo para fazer em casa num dia de chuva, no inverno. Concordo plenamente.
O grupo era feito de pessoas ligadas à arte: professoras, artistas, e professoras que também são artistas. É o público perfeito para esta técnica, porque a gravação de carimbos junta o desenho, o trabalho manual e a calma de fazer uma coisa de cada vez.
O que é o Ramo Comum
O Ramo Comum foi o nome deste workshop "inventado" por mim. Fez parte do ciclo Saber Fazer, do 23 Milhas, o projeto cultural do Município de Ílhavo. A ideia era simples de explicar e mais bonita de ver: os participantes construíam uma árvore todos juntos, na composição, na colocação da tinta e na estampagem.
Depois, cada pessoa desenhou e gravou à mão o seu próprio carimbo, de forma livre, inspirada nas plantas, nos traços e nas flores do jardim. No final, todos carimbaram os carimbos uns dos outros na sua própria árvore. Resultado: cada pessoa levou uma árvore que é sua, com a marca de todos os outros lá dentro. Como resumiu o 23 Milhas, cada gesto individual encontrou o seu lugar num desenho maior.
É disto que eu mais gosto nos carimbos: uma marca pequena, feita por uma pessoa, que ganha sentido quando se junta às outras.

Como fazer carimbos em casa, passo a passo
A técnica é mais simples do que parece. Estas são as dicas que mais repeti durante o workshop.
1. Desenha em papel primeiro
Faz o desenho a lápis, do tamanho da tua borracha. Não tentes desenhar logo na borracha: é mais fácil corrigir no papel.
2. Lembra-te: o que escavas não imprime
Este é o conceito que mais confunde no início. Na borracha, tudo o que gravares (o que sai) fica em branco no papel. O que não tocares fica em relevo e é isso que a tinta vai imprimir. Parece estranho, mas aprende-se depressa. Ajuda pensar que estás a desenhar com o que sobra.
3. Se tiver letras, desenha-as espelhadas
Este é o erro clássico. O carimbo imprime ao contrário, por isso, se escreveres o teu nome tal como se lê, vai sair ao contrário no papel. Se tiveres dúvidas, escreve em papel vegetal, vira-o e copia pelo outro lado.
4. Começa pelos contornos
Usa primeiro a goiva mais fina para marcar os contornos do desenho e só depois uma lâmina mais larga para limpar as zonas maiores.
5. Faz cortes pequenos e com pouca força
Se a lâmina não corta bem, não faças mais força. Roda a borracha (em vez de rodares a mão) e faz cortes mais curtos. Vais ter mais controlo e menos sustos.
6. Corta sempre para longe da mão
Grava para longe do corpo e da mão que segura a borracha, e mantém a mão livre atrás da lâmina. As goivas são ferramentas cortantes, por isso trabalha numa superfície estável e com boa luz. Se houver crianças por perto, só com supervisão de um adulto.
7. Testa e corrige
Carimba num papel de rascunho. As zonas que saem manchadas são excesso de borracha: volta a gravar essas zonas e testa de novo. Aprende-se muito com os primeiros testes.
8. Começa simples
Uma folha, uma estrela, uma inicial, um padrão pequeno. Um motivo simples faz-se numa tarde e dá logo vontade de fazer o seguinte. E fica tudo a postos para fazer carimbos em casa!

O que precisas para começar
Para gravar um carimbo em casa precisas de quatro coisas:
Goivas de gravação, com lâminas de vários tipos
Borracha própria para gravar
Uma base de madeira para montar o carimbo
Uma almofada de tinta
Se preferires ter tudo de uma vez, preparámos um kit com tudo isto numa bolsa de pano: o Kit de gravação de carimbos. Traz 8 goivas, 4 pedaços de borracha para gravar, a peça de madeira (já com fita dupla face), uma almofada de tinta preta e instruções em português. É pensado para quem nunca gravou nada e quer experimentar, mas serve também para quem já tem prática e quer um conjunto completo para levar para qualquer lado.
Perguntas frequentes
Preciso de saber desenhar para fazer carimbos?
Não. Um desenho simples faz um bom carimbo. O que conta é a vontade de experimentar, e a prática faz o resto.
Quanto tempo demora a fazer um carimbo em casa?
Depende do desenho. Um motivo simples faz-se em alguns minutos a horas, mas podes ir aumentando a dificuldade.
Posso usar o carimbo em tecido?
Sim podes! Temos tintas para tecido que não saem com as lavagens.
É seguro para crianças?
As goivas são cortantes, por isso a gravação deve ser feita sempre com supervisão de um adulto.
Fazem o envio?
Sim. O nosso negócio é online por isso estamos preparados para fazer envios para Portugal e Espanha.
Para terminar
Gravar carimbos à mão é daquelas atividades que parecem mais complicadas do que são. Precisas de um desenho simples, de uma borracha, de uma goiva e de alguma paciência. O resto aprende-se a gravar.
Se tiveres um dia de chuva a pedir uma tarde tranquila, já sabes o que fazer.
Fotos recolhidas do facebook do 23 Milhas tiradas por Guilherme Salvador


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